Buenos Aires (Argentina) – Em meio às dificuldades econômicas enfrentadas pela população argentina, o presidente Javier Milei voltou a provocar uma crise diplomática nesta quarta-feira (21/10), durante uma viagem à Espanha. Enquanto seu país registra aumento do desemprego, fechamento de milhares de empresas e perdas salariais acumuladas, o líder argentino decidiu participar de eventos políticos em Madri, onde atacou o primeiro-ministro Pedro Sánchez e interferiu no debate eleitoral espanhol.
Durante um fórum econômico na capital espanhola, Milei chamou Sánchez de “ditador”, “ladrão” e “corrupto”. Também pediu que os eleitores espanhóis expulsassem os socialistas do poder, em referência às eleições gerais marcadas para 29 de novembro.
A reação do governo espanhol foi imediata. O Ministério das Relações Exteriores classificou as declarações como insultos e afirmou que o país não aceita interferências estrangeiras em suas instituições democráticas.
A nova controvérsia ocorre enquanto indicadores econômicos revelam dificuldades persistentes na Argentina, apesar da redução da inflação e dos resultados fiscais apresentados pelo governo Milei.

Desemprego, fechamento de empresas e perda de renda
Os números do mercado de trabalho argentino mostram uma situação preocupante. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), o desemprego atingiu 7,9% no segundo trimestre de 2026, contra 5,7% no último trimestre de 2023, período anterior à posse de Milei.
O fechamento de empresas também se tornou um dos principais problemas econômicos do país.
Levantamento do centro de estudos Fundar, divulgado pela agência internacional EFE, aponta que 30.633 empresas deixaram de funcionar entre o início do governo Milei e maio de 2026. O número corresponde a aproximadamente 6% do total de empresas existentes no início do período analisado.
Somente em maio, foram registrados 2.371 fechamentos, o equivalente a uma média de 76 empresas por dia.
A redução da atividade empresarial acompanha a perda de postos de trabalho com carteira assinada. Dados do Sistema Integrado Previsional Argentino (SIPA), analisados pela Universidade de Buenos Aires, indicam a eliminação de aproximadamente 241 mil empregos formais no setor privado entre novembro de 2023 e maio de 2026.
A indústria e a construção civil estão entre os setores mais afetados.
Salários perdem valor e pobreza volta a crescer
A perda do poder de compra é outro problema enfrentado pelos argentinos.
Estudo da Universidade de Buenos Aires apontou que o salário mínimo havia perdido aproximadamente 40% de seu valor real desde novembro de 2023, considerando os dados disponíveis até o primeiro semestre deste ano.
Entre os servidores públicos, os salários reais também permaneceram abaixo dos níveis registrados antes da posse de Milei. Levantamento divulgado em agosto apontou perda acumulada de 16,5% no poder aquisitivo das remunerações do setor público.
A pobreza, que havia recuado durante parte do programa de estabilização econômica, voltou a aumentar.
Segundo o Indec, a parcela da população abaixo da linha da pobreza passou de 28,2% no segundo semestre de 2025 para 32,3% no primeiro semestre de 2026.
No mesmo período, a extrema pobreza subiu de 6,3% para 7,5%.
Os números representam milhões de argentinos com dificuldades para custear alimentação, moradia e outras despesas essenciais.
Inflação desacelera, mas custo de vida continua pressionando famílias
O controle da inflação é um dos principais resultados apresentados pelo governo argentino.
Em dezembro de 2023, quando Milei assumiu a Presidência, a inflação mensal chegou a 25,5%. Em setembro de 2026, o índice mensal havia recuado para 1,9%.
A desaceleração representa uma mudança importante em relação à crise inflacionária anterior. Entretanto, inflação menor não significa redução generalizada dos preços, mas um ritmo mais lento de aumento.
Além disso, o ajuste fiscal incluiu cortes de subsídios que elevaram o custo de serviços essenciais.
Levantamento citado pelo UOL aponta que um indicador de tarifas de eletricidade, gás, água e transporte público acumulou aumento de 966% entre dezembro de 2023 e julho de 2026.
O resultado é uma economia com inflação mensal mais baixa, mas ainda marcada por dificuldades de consumo, endividamento das famílias e recuperação desigual dos salários.
Espanha acusa Milei de interferência política
Enquanto esses problemas permanecem no centro do debate econômico argentino, Milei realizou sua terceira viagem à Espanha em 2026 e a sétima desde que foi eleito presidente.
Desta vez, a agenda incluiu atividades acadêmicas, encontros com representantes da direita espanhola e participação em um fórum econômico. Não houve reunião oficial com Pedro Sánchez.
O presidente argentino se encontrou com Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madri, e manteve contato com representantes do partido Vox, de direita radical.
As declarações contra Sánchez provocaram uma nota oficial de repúdio da diplomacia espanhola.
Para o Ministério das Relações Exteriores, é inadmissível que um chefe de Estado estrangeiro visite o país para atacar suas instituições e estimular a polarização durante uma campanha eleitoral.
O governo espanhol também condenou as declarações de Milei que incentivaram a expulsão dos socialistas do poder.
Pedro Sánchez reagiu criticando a política de austeridade do presidente argentino e afirmou que medidas baseadas em cortes profundos de gastos públicos podem comprometer o crescimento econômico e a coesão social.
Viagens internacionais provocam questionamentos
A frequência das viagens internacionais de Milei também passou a ser questionada na Argentina.
Segundo o jornal espanhol El País, a oposição argentina critica os custos e a utilidade de deslocamentos que frequentemente combinam atividades econômicas, encontros ideológicos e manifestações políticas.
O governo Milei, por sua vez, sustenta que a presença internacional do presidente faz parte de uma estratégia para atrair investimentos, ampliar relações econômicas e divulgar as reformas realizadas no país.
A administração argentina também destaca a obtenção de superávit fiscal e a desaceleração da inflação como resultados de sua política econômica.
Entretanto, o contraste entre esses indicadores e as dificuldades enfrentadas por trabalhadores e empresas mantém aberto o debate sobre os efeitos sociais do programa de austeridade.
A visita à Espanha acrescenta mais um episódio de tensão diplomática à agenda do presidente argentino, que também protagonizou recentemente um confronto com o governo brasileiro após declarações sobre as eleições presidenciais do Brasil.
Redação DNA Político
Com informações da CNN Brasil, Agência EFE, Associated Press (AP), UOL, El País, Infobae e dados do Indec e do Sistema Integrado Previsional Argentino (SIPA).